Journal du Club des Cordeliers - Sem luz e com ruas vazias, Havana aguarda futuro incerto

Sem luz e com ruas vazias, Havana aguarda futuro incerto
Sem luz e com ruas vazias, Havana aguarda futuro incerto / foto: Pablo PORCIUNCULA - AFP

Sem luz e com ruas vazias, Havana aguarda futuro incerto

Outrora sinônimo de alegria e turismo, Havana esvaziou-se devido aos apagões, ao êxodo e a uma profunda incerteza quanto ao seu futuro.

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Há tão poucos carros circulando pelo Malecón, a icônica avenida à beira-mar da capital que antes fervilhava de atividade, que agora é possível atravessá-lo sem olhar para os lados.

Todas as noites, as estreitas ruas de paralelepípedos da Velha Havana mergulham na escuridão total. Estão praticamente desertas.

Após um embargo de combustível de sete meses imposto pelos Estados Unidos e constantes cortes de energia, os moradores brincam que estão cansados de ver as estrelas.

De vez em quando, é possível ver movimento nas sombras.

Pessoas em situação de rua vasculham montanhas de lixo em busca de comida, plástico ou qualquer coisa que possam usar ou vender.

Manuel Sánchez, de 50 anos, que sofre de câncer bucal, é uma delas. "Recorremos ao lixo para sobreviver", conta à AFP. "Não tenho casa, não tenho família, não tenho nada", acrescenta.

De repente, escuta-se um barulho. Um grupo de manifestantes bate panelas e frigideiras para expressar sua indignação com os prolongados cortes de energia, movendo-se rapidamente para escapar da polícia.

A maioria dos moradores de Havana evita andar pelo bairro antigo à noite.

"Há muita violência nas ruas", alerta Sánchez, que às vezes busca refúgio em uma cabine da companhia elétrica, onde o calor é sufocante. "Eles te esfaqueiam ou jogam uma pedra na sua cabeça e te matam", acrescenta.

As únicas multidões são vistas durante o dia em bancos, padarias do governo (que são mais baratas) e em frente a consulados como o espanhol, onde centenas de cubanos esperam, com documentos em mãos, para poder deixar a ilha.

Ninguém sabe quantas pessoas já partiram. Em 2012, a população oficial ultrapassava os 11 milhões.

O demógrafo cubano Juan Carlos Albizu-Campos estima que esse número tenha caído para oito milhões, um milhão a mais do que há 67 anos, quando Fidel Castro proclamou o triunfo da revolução.

Desde então, Cuba enfrentou o colapso do bloco soviético, uma pandemia e o endurecimento das sanções de Washington. A crise atual transformou completamente as vistas, os sons e os cheiros da Velha Havana.

- "Só Deus sabe" -

Há um século, a legislação dos Estados Unidos fez de Havana um refúgio predileto dos chefões da máfia e de turistas. Agora, os turistas também desapareceram.

Restam alguns poucos mexicanos e colombianos, que buscam restaurantes abertos com eletricidade e que sirvam comida fresca.

Muitos dos estabelecimentos antigos e icônicos da cidade estão fechados. Alguns moradores de Havana reclamam que o dinheiro investido na reconstrução de antigos palácios em hotéis imponentes, que agora estão vazios, foi um desperdício.

Irina Aguirre passa os dias na soleira de um desses prédios de portas fechadas, bem perto da colonial Plaza San Francisco.

Seu trabalho é prever o futuro em uma cidade que não pensa em outra coisa. Durante anos, ela leu cartas de tarô para os turistas que desembarcavam em massa de navios de cruzeiro e aviões, ansiosos para saber se encontrariam novos amores ou grandes riquezas.

Agora, Aguirre responde a perguntas dos próprios cubanos, mas não exatamente sobre o amor.

Quando terminará o embargo de combustível imposto pelos Estados Unidos? A vida vai melhorar? Essas são "as perguntas que todos estão fazendo", diz ela.

No entanto, o futuro de Cuba é incerto demais, até mesmo para as cartas. "Só Deus sabe", responde com um sorriso.

M.Durand--JdCdC