Journal du Club des Cordeliers - Julgamento de mãe por assassinato dos filhos desperta debate sobre psicose pós-parto

Julgamento de mãe por assassinato dos filhos desperta debate sobre psicose pós-parto
Julgamento de mãe por assassinato dos filhos desperta debate sobre psicose pós-parto / foto: JOSEPH PREZIOSO - AFP

Julgamento de mãe por assassinato dos filhos desperta debate sobre psicose pós-parto

O midiático julgamento de Lindsay Clancy — que estrangulou seus três filhos e afirma ter sofrido psicose pós-parto — desperta um debate sobre a saúde mental materna nos Estados Unidos.

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A enfermeira, de 36 anos, não nega ter estrangulado Cora (5 anos), Dawson (3) e Callan (oito meses) com faixas elásticas de exercício em sua casa em Duxbury, Massachusetts, em janeiro de 2023. Em seguida, atirou-se pela janela do segundo andar, o que a paralisou da cintura para baixo e a deixou em uma cadeira de rodas.

No entanto, Clancy declarou-se inocente por motivo de insanidade, alegando que ouviu uma voz que lhe ordenava matar seus filhos. Os advogados sustentam que isso foi consequência de uma psicose puerperal.

A Promotoria rejeita esse argumento e afirma que ela planejou assassinar seus filhos e que era capaz de compreender as consequências de seus atos. O júri entrou na fase de deliberação.

Nas últimas semanas, dezenas de mulheres vestidas de rosa compareceram ao tribunal de Plymouth para apoiar Clancy e reivindicar questões relacionadas à saúde da mulher.

A advogada Kelly Woods, de Chicago, declarou que acompanha o julgamento como uma firme defensora das pessoas que sofrem de psicose pós-parto. "Espero sinceramente que a comunidade médica possa aprender com isso", afirmou. "E, acima de tudo, espero que haja uma defesa mais ampla e maior conscientização sobre a depressão e a psicose pós-parto".

Psiquiatras, pessoas próximas a Clancy e seu marido — de quem está separada — descreveram durante o julgamento o estado de angústia em que ela se encontrava. Se ela for considerada culpada, poderá ser condenada à prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional.

- "Passou despercebida" -

A psicose pós-parto é uma emergência médica que afeta entre uma e duas mulheres a cada mil partos, afirmou Sally Wilson, coordenadora nacional de formação da ONG britânica Action on Postpartum Psychosis.

O caso de Clancy é "um desfecho inacreditavelmente angustiante e pouco frequente da psicose pós-parto", declarou à AFP.

Durante as alegações finais, o advogado de Clancy, Kevin Reddington, lembrou que a mãe havia pedido ajuda em diversas ocasiões antes dos assassinatos e havia recebido um "atendimento péssimo" dos médicos que consultou.

"Ela estava fazendo o possível para conseguir ajuda e, por alguma razão, o sistema falhou com ela", disse Adrienne Griffen, diretora da ONG Maternal Mental Health Leadership Alliance.

"A pergunta que todos se fazem é como evitar que algo assim volte a acontecer", apontou Griffen, ao considerar que é necessário destinar mais recursos às mães.

A Promotoria reconheceu que Clancy "sofria de uma doença mental" e havia tentado se suicidar, mas argumentou que os assassinatos foram premeditados e particularmente cruéis.

O julgamento lembrou um caso semelhante que abalou os Estados Unidos há 25 anos: o de Andrea Yates, uma mãe do Texas que afogou os cinco filhos em 2001.

Yates foi inicialmente condenada à prisão perpétua, mas um novo julgamento em 2006 a considerou inocente por razão de insanidade e determinou sua internação em um hospital psiquiátrico.

- Boa mãe e má mãe -

Vozes políticas de direita condenaram o nível de violência dos assassinatos, enquanto apoiadores da acusada se reuniram em frente ao tribunal.

"Lindsay Clancy merece morrer por ter assassinado seus três filhos", escreveu nas redes sociais Katie Miller, podcaster e esposa de Stephen Miller, principal assessor do presidente Donald Trump.

Juliet Williams, professora de estudos de gênero na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), disse que o julgamento e o debate em torno dele demonstram "o profundo interesse que os americanos — e o mundo inteiro — continuam tendo na figura da mãe".

Ela destacou que o caso se tornou uma oportunidade "não apenas para condenar uma tragédia", mas para mostrar como "a figura da boa mãe e, claro, da má mãe se tornam um elemento divisivo na sociedade".

G.Guillet--JdCdC