Guardas, o elo mais fraco no setor de segurança privada no Equador
Turnos de 24 horas, baixos salários e a constante ameaça do crime organizado. Os guardas de segurança privada, como o desaparecido Ricardo Luna, representam a camada mais baixa da indústria de segurança no Equador, que prospera em meio ao medo do tráfico de drogas.
Onde eles estão? Por que sumiram? Essas são as perguntas que assombram Betty, irmã de Ricardo Luna.
O homem, de 28 anos, partiu em 14 de junho com cinco colegas para proteger um barco que coletava camarão nos viveiros de uma empresa localizada no Golfo de Guayaquil, uma enseada no sudoeste do país assolada por gangues que traficam drogas, extorquem, sequestram e roubam.
Eles nunca chegaram ao destino, onde deveriam proteger uma atividade crucial para a economia do Equador, o maior produtor mundial de camarão. Um dos guardas foi encontrado com uma bala na cabeça.
A cena se repete frequentemente no país mais perigoso da América do Sul, onde empresários, políticos e outras elites buscam proteção privada contra um Estado sobrecarregado pelo crime.
No Equador, ser guarda de segurança "significa arriscar a vida", diz Betty, uma agricultora de 38 anos, cuja "fé permanece inabalável" de que encontrará o irmão.
Ela critica o fato de que, enquanto Ricardo defendia "pessoas com dinheiro por necessidade" e em condições precárias, o setor da segurança privada prosperava em meio à violência.
As 1.600 empresas registradas no setor faturaram mais de 1,1 bilhão de dólares (5,6 bilhões de reais) em 2025, segundo a Superintendência de Empresas.
O presidente de direita, Daniel Noboa, tenta, sem muito sucesso, conter as gangues criminosas com políticas de linha dura e a mobilização do exército nas ruas.
- Estado sobrecarregado -
Em Guayaquil, é comum ver seguranças armados com fuzis do lado de fora de restaurantes, shoppings e até mesmo em ônibus escolares, devido a uma onda de violência que, no ano passado, elevou a taxa de homicídios a um recorde de 51 por 100 mil habitantes.
"Diante do aumento da criminalidade, a polícia e os militares estão sobrecarregados e precisam que sejamos seus olhos", afirma o ex-chefe de polícia Abraham Correa, dono de uma empresa de segurança.
Os seguranças desaparecidos são de uma comunidade pobre na região central do país. Suas famílias organizam rifas e vendem alimentos para financiar protestos e exigir que as autoridades não os esqueçam.
Em junho, familiares protestaram em frente ao palácio presidencial em Quito. Eles reclamam de terem ficado sabendo do desaparecimento pelas redes sociais e não pela empresa onde os homens trabalhavam.
A empresa a que pertenciam é uma das maiores do setor da segurança privada e seus lucros dobraram no último ano. O número de funcionários também aumentou em 63%.
A especialista Carla Álvarez alerta, em um relatório de 2026 sobre o tráfico de drogas no Equador, que a segurança privada está crescendo devido à "incapacidade do Estado de garantir a segurança", e que também serve de fachada para que gangues lavem dinheiro.
Nenhum dos guardas desaparecidos tinha antecedentes criminais.
A.André--JdCdC