Governo francês nega 'repressão policial' a protestos estudantis
O governo francês rejeitou, nesta terça-feira (6), as críticas de "repressão policial", enquanto dezenas de milhares de estudantes do ensino médio, acompanhados de pais, professores e sindicatos, voltaram às ruas para reivindicar melhores condições de ensino.
Desde o fim de setembro, estudantes secundaristas de 15 a 18 anos bloquearam centenas de escolas para denunciar a falta de substitutos para professores ausentes e horários sobrecarregados, além de salas de aula deterioradas e incapazes de suportar o aumento das temperaturas.
"A única coisa que pedimos é poder trabalhar e ter boas condições de trabalho, simplesmente", resumiu à AFP Loan, aluna do último ano do ensino médio, durante a manifestação em Marselha. Em Nantes, a faixa à frente da marcha dizia: "Escolas sem dinheiro, país sem futuro".
O descontentamento com a situação existe há anos, especialmente desde a adoção do sistema de acesso ao ensino superior Parcoursup, visto como elitista e pouco transparente.
As últimas ondas de calor, que deixaram as salas de aula com temperaturas elevadas, e o relatório Pisa, no qual os alunos franceses registraram seu nível mais baixo desde 2000, intensificaram a preocupação.
Para reivindicar mais recursos, cerca de 256.000 pessoas se manifestaram na França a convite de associações estudantis e sindicatos, segundo as autoridades. As organizações responsáveis pelos atos elevaram esse número para 450.000.
As marchas transcorreram de forma majoritariamente pacífica, com distúrbios pontuais em cidades como Paris, Lyon e Rennes.
Sindicatos, pais e universitários acompanharam desta vez os estudantes do ensino médio para garantir uma jornada tranquila após os confrontos com as forças de segurança nas últimas semanas, que renderam ao governo críticas de "repressão policial".
"A geração Z se levantou e quer ser ouvida", declarou à AFP Lilia, de 19 anos, que se manifestou em Paris por seu irmão mais novo e seus primos. Ela espera que o presidente Emmanuel Macron, de centro direita, ouça a juventude, "em vez de financiar guerras", em referência ao aumento dos gastos militares.
No total, 488 pessoas foram detidas nesta terça-feira e 43 integrantes das forças de segurança ficaram feridos, informou o Ministério do Interior.
Desde o início do movimento, o governo afirma que 215 estudantes ficaram feridos, assim como 85 profissionais da educação e 715 policiais. Mais de 6.500 pessoas foram detidas.
Macron convocou integrantes importantes de seu governo, entre eles o primeiro-ministro Sébastien Lecornu, para discutir a situação na noite de terça-feira, informou uma fonte do Executivo.
- Perdas de mão e dentes -
A menos de sete meses do primeiro turno da eleição presidencial para escolher o sucessor de Macron, com a líder de extrema direita Marine Le Pen à frente nas pesquisas, os protestos entraram no debate político.
Na França, o governo e os partidos de direita e extrema direita acusaram o partido de esquerda radical França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, de querer "semear o caos" antes da eleição presidencial.
A oposição de esquerda, por sua vez, culpou o governo pela repressão aos protestos.
Um jovem de 15 anos perdeu uma mão na segunda-feira quando, segundo uma fonte de um sindicato policial, recolheu uma granada de dispersão em Lens. Outros estudantes perderam a visão de um olho ou dentes durante investidas das forças de segurança.
"Não podemos deixar nenhuma margem de tolerância à violência", afirmou Lecornu durante uma tensa sessão de questionamentos ao governo no Parlamento. Ele classificou como "mentiras" as referências a "instruções políticas de repressão policial" e falou em "acidentes".
"Acidentes? Senhor primeiro-ministro, não tem mais nada a dizer (...) Perdeu a razão!", afirmou o deputado ecologista Benjamin Lucas-Lundy, que acusou o governo de permitir o uso de "armas de guerra" contra os estudantes.
A polícia abriu cerca de dez investigações internas contra agentes, entre elas uma nesta terça-feira, após a divulgação de um vídeo que mostra um policial à paisana aparentemente tocando o cabelo e o peito de uma jovem detida em Metz.
A Justiça apresentou, nesta terça-feira, uma acusação formal por atos de violência contra um dos policiais por ferir gravemente o rosto de Eden, de 14 anos, no noroeste de Paris, ao disparar um lançador de projéteis de defesa, informou o Ministério Público.
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M.Marchand--JdCdC