Journal du Club des Cordeliers - Países unem forças em Santa Marta para começar a se afastar do petróleo

Países unem forças em Santa Marta para começar a se afastar do petróleo
Países unem forças em Santa Marta para começar a se afastar do petróleo / foto: Raul ARBOLEDA - AFP

Países unem forças em Santa Marta para começar a se afastar do petróleo

Os países reunidos em Santa Marta uniram forças, na quarta-feira (29), para iniciar a transição rumo à eliminação gradual dos combustíveis fósseis, apesar de ainda terem que convencer o resto do mundo, incluindo grandes produtores como os Estados Unidos e a China.

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Frustrados com o impasse nas negociações climáticas entre quase 200 países na ONU, cerca de 60 nações participaram, durante dois dias, desta primeira conferência na Colômbia para abandonar o petróleo, o gás e o carvão, os principais responsáveis pelo aquecimento global.

Embora planejada há meses pela Colômbia e pelos Países Baixos, a reunião ganhou especial importância devido à guerra no Irã, que provocou a disparada dos preços do petróleo e colocou em risco a segurança energética global. O petróleo Brent ultrapassou os US$ 119 (R$ 594) por barril na quarta-feira, seu maior valor desde 2022.

"Todos nós que estamos aqui estamos porque queremos avançar", resumiu a ministra holandesa do Clima, Stientje van Veldhoven, ao final da conferência.

"Grandes resultados" foram alcançados, afirmou sua homóloga colombiana, a ministra do Meio Ambiente, Irene Vélez.

Ela citou especificamente a criação de um painel científico internacional para assessorar os países que já trabalham na transição e a cooperação no desenvolvimento de roteiros nacionais para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis.

A França apresentou seu próprio documento com metas concretas na terça-feira, o qual foi considerado um exemplo de uma grande economia pelos especialistas presentes em Santa Marta.

O bloqueio do Estreito de Ormuz devido à guerra no Oriente Médio "abalou o sistema de combustíveis fósseis" e isso "estimulou" a conferência, afirmou o secretário de Estado alemão para o Meio Ambiente, Jochen Flasbarth.

"Em Santa Marta, era possível sentir uma espécie de novo começo, de que as coisas podem avançar" com a transição, acrescentou.

Na COP28, em Dubai, em 2023, a comunidade internacional se comprometeu a iniciar uma transição para longe dos combustíveis fósseis.

No entanto, desde então, não houve progresso devido à oposição de grandes países poluidores, como os Estados Unidos, a China e monarquias produtoras de petróleo como a Arábia Saudita, que estiveram ausentes em Santa Marta.

As emissões de gases de efeito estufa procedentes desses combustíveis aumentaram novamente em 2025, atingindo um recorde histórico.

"Essa conversa não conseguiu avançar" até agora na ONU "porque sua estrutura de construção de consenso está obsoleta", disse o representante do Panamá, Juan Monterrey.

"Esta é a primeira vez que conseguimos ter uma conversa de verdade sem uma questão estúpida na pauta, sem um procedimento estúpido que atrapalhe toda a sessão", disparou ele.

- Contradições e paradoxos -

A conferência, no entanto, expôs suas contradições e paradoxos.

Diversas nações africanas ricas em petróleo afirmaram que continuarão perfurando para sustentar seu desenvolvimento, uma demonstração das tensões entre a necessidade climática e as realidades econômicas dos países produtores em desenvolvimento.

"Não se trata de uma eliminação gradual, mas de uma redução gradual. Essa é a mensagem", disse à AFP Onuoha Magnus Chidi, assessor do ministro do Desenvolvimento Regional da Nigéria.

"Estamos eliminando gradualmente e defendemos que deve haver planejamento prévio (...) tem que ser justo para todos", acrescentou Chidi, cujo país é um dos principais produtores de petróleo e gás da África.

O Senegal, que recentemente descobriu petróleo e gás em sua costa, defendeu o equilíbrio entre as metas climáticas e as prioridades de desenvolvimento.

"Queremos afirmar nosso direito ao desenvolvimento, com total responsabilidade", disse à AFP Serigne Momar Sarr, assessor técnico do Ministério do Meio Ambiente do Senegal.

Outros países presentes em Santa Marta estão inclusive planejando novos projetos de exploração, como o Brasil, que recentemente anunciou sua intenção de se juntar ao México na busca por petróleo nas águas profundas do Golfo do México.

Enquanto isso, os que não participam seguem em frente.

O Equador anunciou na quarta-feira que iniciou, pela primeira vez, a extração de petróleo na floresta amazônica utilizando o "fracking", ou fraturamento hidráulico, uma técnica criticada por seu impacto ambiental.

A conferência de Santa Marta terá pelo menos uma segunda edição em 2027, na ilha de Tuvalu, no Pacífico, que está ameaçada pela elevação do nível do mar devido ao aquecimento global.

M.Marchand--JdCdC